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As Vilas da Vida

Por que as Aldeias da Vida?

Como passar do mundo de hoje para uma vida que amanhã continue sendo possível, serena e humana?

É o mesmo relato. Escolha a forma que preferir.

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6 minutos

Por que as Aldeias da Vida?

Tudo começa com uma pergunta muito simples:

Como vamos viver amanhã, se o mundo em que aprendemos a viver ficar muito mais frágil?

Hoje, quase tudo de que precisamos parece estar disponível.

A gente abre a torneira: sai água. A gente entra num mercado: tem comida. A gente adoece: procura um médico. A gente aperta um interruptor: a luz acende.

Acabamos considerando tudo isso normal.

Mas não é a natureza que nos fornece tudo isso.

É uma civilização extremamente complexa.

E uma civilização pode se tornar frágil.

As Aldeias da Vida nasceram dessa reflexão há mais de vinte anos:

não esperar que as dificuldades cheguem para nos perguntarmos como vamos continuar vivendo.

Não sabemos exatamente como será o mundo de amanhã.

Mas podemos nos preparar.

500 pessoas capazes de viver juntas

Trabalhamos com comunidades de cerca de 500 pessoas.

Crianças. Adultos. Pessoas idosas. Famílias.

Pessoas comuns que precisam poder se alimentar, ter acesso à água, receber cuidados, aprender, construir, consertar, cultivar alimentos, transmitir o que sabem e continuar vivendo juntas num ambiente muito mais difícil.

E, ainda assim, nossa ambição não é simplesmente sobreviver.

Queremos continuar vivendo e ser felizes.

Trabalhar, claro.

Mas também rir. Amar. Criar os filhos. Fazer festa. Cantar. Transmitir. Envelhecer cercados por outras pessoas.

Porque salvar a vida faria pouco sentido se, ao fazer isso, eliminássemos tudo aquilo que torna a vida digna de ser vivida.

Outro jeito de nos organizarmos

Nas Aldeias da Vida não existe chefe.

O conhecimento, a experiência e o saber fazer dão naturalmente a iniciativa a quem sabe fazer o que é necessário naquele momento.

Quem conhece a terra orienta quando é hora de cultivar. Quem sabe consertar uma máquina toma a iniciativa quando alguma coisa quebra. Quem sabe cuidar de pessoas doentes é ouvido quando alguém adoece.

E quem sabe alguma coisa também tem uma responsabilidade:

transmitir esse conhecimento.

Dentro da Aldeia, o dinheiro deixa de organizar as relações entre as pessoas.

Aos bens e aos serviços não é atribuído o tempo todo um preço, nem eles são trocados de acordo com seu valor monetário.

O direito de propriedade vai dando lugar, pouco a pouco, a algo diferente:

o direito de uso.

Uma casa existe para ser habitada. Uma ferramenta, para ser usada. A terra, para alimentar as pessoas. O conhecimento, para ser transmitido.

Passar de hoje para amanhã

Seria relativamente simples imaginar uma comunidade ideal no papel.

O verdadeiro desafio é outro.

Centenas de pessoas precisam poder saber o que fazer, quando fazer, como fazer, do que precisam e com quem fazer.

É preciso produzir alimentos. Cuidar da água. Conservar as sementes. Cuidar das pessoas. Construir. Manter as ferramentas. Educar as crianças. Preparar os estoques. Consertar. Experimentar.

E todas essas atividades dependem umas das outras.

No entanto, boa parte do conhecimento de que vamos precisar está hoje espalhada pelo mundo, foi esquecida ou ainda não existe numa forma que as pessoas comuns possam usar diretamente.

Foi por isso que criamos ferramentas capazes de organizar o conhecimento e a ação.

O papel delas não é substituir os seres humanos.

Muito pelo contrário.

A tecnologia deve ajudar o ser humano a voltar a ser capaz de viver sem ela.

Ela deve ajudar uma pessoa a aprender, entender e agir — e depois a transmitir, por sua vez, aquilo que aprendeu.

Fazer o conhecimento circular

Uma Aldeia não pode viver isolada.

Ela precisa poder aprender com outras Aldeias, compartilhar uma descoberta, pedir ajuda ou encontrar uma competência que lhe falta.

Criamos NDAJE, uma ferramenta para reuniões e trocas que permite que pessoas que falam línguas diferentes trabalhem juntas.

Também estamos desenvolvendo meios para encontrar, conservar e transmitir conhecimentos e saberes práticos que, de outro modo, poderiam desaparecer.

E procuramos mulheres e homens de experiência — os Companheiros da Vida — com quem podemos aprender.

Às vezes, conhecimentos. Às vezes, métodos. Às vezes, a experiência deles. E, às vezes, simplesmente a força humana necessária para seguir em frente.

Colocar esse conhecimento ao alcance de todos

Há mais de vinte anos dedicamos milhares de horas de trabalho a este projeto.

Agora queremos compartilhá-lo.

As ferramentas essenciais são destinadas a ser colocadas à disposição de todas as pessoas que quiserem se preparar para o futuro.

Pouco a pouco, publicamos esse trabalho em vários idiomas e construímos uma presença regular nas redes sociais:

um vídeo curto todos os dias, para apresentar uma ideia; e dois vídeos mais longos por semana, para explicar de verdade um tema, uma dificuldade ou uma solução.

Porque, antes de construir uma Aldeia, talvez seja preciso fazer surgir primeiro outra coisa:

uma pergunta.

Como vou viver amanhã?

As Aldeias da Vida não pretendem saber exatamente como será o mundo de amanhã.

Querem simplesmente fazer aquilo que os seres humanos sempre fizeram quando viam tempos difíceis se aproximando:

se preparar juntos.

Não apenas para continuar vivos. Mas para construir uma vida que continue valendo a pena ser vivida.

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Uma versão mais longa e detalhada do relato da palestra. Retoma e aprofunda o que você acabou de ler ou ouvir.

23 minutos

Como vamos viver amanhã?

Quero falar com vocês sobre as Fazendas da Vida.

Mas preciso começar com uma pequena correção.

O nome acabou de mudar.

Agora nós as chamamos de Aldeias da Vida.

Por quê?

Porque, no fundo, o que estamos construindo não é uma fazenda.

É um lugar onde os seres humanos precisam poder continuar vivendo.

E talvez seja justamente por aí que devamos começar.

Com uma pergunta muito simples.

O nosso mundo não está bem.

Certo?

Mas nós, hoje, estamos relativamente bem.

Certo também?

Então a pergunta seguinte fica muito mais interessante:

O mundo vai piorar?

Deixo vocês responderem.

E, se a resposta for sim, surge imediatamente uma segunda pergunta:

Isso pode ter consequências sobre a nossa própria vida?

Sobre a nossa alimentação? Sobre a água que bebemos? Sobre a nossa saúde? Sobre a nossa segurança? Sobre a possibilidade de criar nossos filhos?

E, no fim, por trás de todas essas perguntas, sobra apenas uma.

Uma só.

O que está acontecendo pode chegar ao ponto de colocar em risco a própria vida dos seres humanos?

Foi a partir dessa pergunta que nasceram as Aldeias da Vida.

Essa pergunta não é nova.

Em 1972, o relatório Meadows, resultado dos trabalhos do MIT, já colocava de maneira muito clara o problema dos limites físicos do nosso modelo de desenvolvimento.

Naquela época, eu tomei conhecimento desses trabalhos.

Mas, durante muito tempo, como tantas outras pessoas, simplesmente continuei vivendo.

A gente sabe alguma coisa.

Guarda em algum lugar da cabeça.

E a vida cotidiana volta a tomar conta de tudo.

Depois, em 2003, ao descobrir, entre outras coisas, as explicações de Jean-Marc Jancovici, alguma coisa mudou para mim.

Eu já não compreendia o problema apenas de maneira intelectual.

Comecei a perceber de verdade a sua dimensão.

E, em novembro de 2003, comecei a fazer aquilo que eu sabia fazer.

Um projeto.

Esse é o meu trabalho.

Mas, dessa vez, o projeto tinha uma razão profundamente pessoal.

Eu tinha netas.

E queria simplesmente que elas pudessem ter um futuro normal.

Poder crescer. Amar. Talvez ter filhos. Rir. Trabalhar. Envelhecer.

Na verdade, por trás de todas as reflexões que vieram depois, havia um pensamento muito mais simples:

eu não queria que elas morressem aos vinte e cinco anos porque a nossa geração não tinha preparado nada.

Essa é a origem das Aldeias da Vida.

E, há mais de vinte anos, trabalhamos em torno desta pergunta:

como permitir que os seres humanos continuem vivendo se o mundo em que aprendemos a viver deixar de funcionar como funciona hoje?

Há várias maneiras de falar sobre isso.

Podemos falar às emoções.

Podemos falar à razão.

Podemos mostrar curvas. Temperaturas. Recursos. Dados de população. Produção agrícola. Necessidades de energia.

Mas talvez o problema mais difícil nem seja científico.

É humano.

Porque é extraordinariamente difícil convencer uma pessoa de hoje a se preparar seriamente para um mundo que ainda não existe.

Desde que nascemos, aprendemos uma coisa extraordinária:

quase tudo aquilo de que precisamos está disponível.

A gente abre a torneira: tem água. Entra num mercado: tem comida. Aperta um interruptor: a luz acende. Fica doente: procura um médico. Quer atravessar o país: algumas horas depois, chegou.

Tudo isso parece tão normal que acabamos esquecendo uma coisa essencial:

não é a natureza que nos fornece diretamente tudo isso.

É uma civilização extremamente complexa.

E uma civilização pode se tornar frágil.

Então vamos simplesmente imaginar que algumas coisas essenciais fiquem menos disponíveis.

Não daqui a cem anos.

Durante a nossa própria vida.

Água. Alimentos. Cuidados de saúde. Segurança.

Depois, aos poucos, energia.

Educação. Transmissão do conhecimento. Ferramentas. Infraestruturas. O ambiente em que vivemos.

Nesse momento, a pergunta deixa de ser:

“Como manter o nosso padrão de vida?”

Ela se torna muito mais fundamental.

Como viver?

E logo depois:

como vamos viver amanhã?

Essa é a pergunta central das Aldeias da Vida.

Escolhemos não esperar que os acontecimentos nos imponham a resposta.

Estamos tentando construí-la agora.

500 pessoas capazes de viver juntas

As Aldeias da Vida são pensadas para pessoas comuns.

Não para sobrevivencialistas. Não para heróis. Não para pessoas capazes de viver sozinhas no meio de uma floresta.

Para famílias. Para crianças. Para pessoas idosas. Para mulheres e homens com suas forças, suas fraquezas, seus conhecimentos e seus medos.

Pessoas dispostas a aprender a viver num mundo que pode se tornar muito mais difícil e limitado do que aquele que conhecemos hoje.

E o nosso desafio vai ainda mais longe.

Não queremos simplesmente permitir que essas pessoas sobrevivam.

Queremos que elas possam viver.

E mais do que isso:

acreditamos que muitas delas podem até ser mais felizes lá do que são hoje.

Isso pode parecer paradoxal.

Menos conforto material. Menos velocidade. Menos consumo.

Mas mais vínculos. Mais família. Mais tempo. Mais utilidade. Mais transmissão. Mais festas. Mais vida.

Para entender até onde esse caminho nos leva, vou apresentar algumas características dessas Aldeias.

Imaginamos comunidades de cerca de 500 pessoas.

Tudo começa em torno de uma primeira pessoa que chamamos de Iniciadora — ou Iniciador.

Essa pessoa não é a chefe.

Não dá ordens a ninguém.

Sua função é diferente.

Cuida da própria comunidade. Das relações. Das pessoas. Daquilo que as une.

Às vezes digo que ela é um pouco como a mãe da comunidade.

Não porque a Aldeia pertença a ela.

Não porque ela a dirija.

Mas porque alguém precisa cuidar do vínculo que permite que quinhentas pessoas se tornem algo mais do que uma simples soma de indivíduos.

Outro jeito de nos organizarmos

E agora chegamos a diferenças muito mais profundas.

Numa Aldeia da Vida não existe dinheiro dentro da comunidade.

Mas vamos ainda mais longe.

Não há preços. Não há salários. Não se atribui valor monetário aos bens e serviços trocados entre os moradores.

Eu não conserto o seu telhado para que depois você me deva três horas de trabalho.

Não cuido do seu filho para receber alguma coisa em troca.

Faço aquilo que sei fazer porque a comunidade precisa disso.

E amanhã, quando eu precisar dos outros, eles estarão lá.

O direito de propriedade, como o conhecemos hoje, vai dando lugar, pouco a pouco, a algo diferente:

o direito de uso.

A pergunta importante deixa de ser:

“De quem é isso?”

E passa a ser:

“Quem precisa disso, e para quê?”

Uma casa existe para ser habitada. Uma ferramenta, para ser usada. A terra, para alimentar. O conhecimento, para ser transmitido.

E, acima de tudo:

não existe chefe.

Não existe pirâmide.

Não existe alguém lá em cima que supostamente saiba melhor do que quinhentas pessoas o que todas elas devem fazer.

Mas isso não significa que todo mundo saiba tudo.

Pelo contrário.

Existe uma forma de precedência.

Uma só.

A do saber fazer, da experiência e do conhecimento.

Diante de um incêndio, quem sabe combater o fogo assume naturalmente a iniciativa. Diante de um parto difícil, escutamos quem sabe acompanhar um parto. No campo, escutamos quem conhece a terra. E, diante de uma máquina quebrada, quem sabe consertá-la.

O poder deixa, portanto, de estar ligado a uma posição.

Ele se desloca com o conhecimento necessário, no momento em que esse conhecimento é necessário.

E esse conhecimento traz consigo uma responsabilidade fundamental:

quem sabe deve transmitir.

Porque, num mundo frágil, guardar para si aquilo que se sabe deixa de ser apenas egoísmo.

Passa a ser perigoso para todos.

Essas são algumas das ideias em que trabalhamos há mais de vinte anos.

E vocês podem perceber que, no fundo, as Aldeias da Vida não procuram apenas responder à pergunta:

“Como sobreviver num mundo que está piorando?”

A verdadeira pergunta é muito mais bonita.

É esta:

“Se tivermos de aprender novamente a viver de outra maneira… como podemos construir uma vida que realmente valha a pena ser vivida?”

Isso são as Aldeias da Vida.

Passar de hoje para amanhã

Mas uma ideia, mesmo sendo boa, não basta.

Agora é preciso torná-la possível.

E provavelmente é aqui que começa a parte mais difícil do nosso trabalho.

Porque o problema que temos diante de nós é gigantesco.

Amanhã teremos de ser capazes de produzir, em condições que podem se tornar extremamente difíceis, tudo aquilo que permite a 500 pessoas viver.

Não apenas comer.

Viver.

Vai ser preciso água. Alimentos. Cuidados de saúde. Roupas. Moradias. Energia. Ferramentas. Sementes. Meios de transporte. Conhecimentos. Riso. Alegria. Prazer.

E pessoas capazes de consertar. Construir. Cultivar. Cuidar. Ensinar.

E tudo isso terá de funcionar junto.

Porque uma comunidade nunca vive graças a uma única coisa.

Ela vive graças a centenas, e depois milhares, de ações que dependem umas das outras.

Existem hoje comunidades que conservaram uma importante capacidade de autonomia.

Podemos pensar, por exemplo, em algumas comunidades Amish ou em outras sociedades tradicionais.

Temos muito a aprender com elas.

Mas elas possuem uma vantagem enorme:

herdaram uma cultura, saberes práticos e uma organização construídos ao longo de gerações.

Não inventaram sua maneira de viver em poucos anos.

Elas a receberam.

Nós estamos quase na situação oposta.

Em poucos anos, precisamos recuperar, reconstruir, adaptar e, às vezes, inventar capacidades que a nossa civilização levou séculos para abandonar.

E precisamos fazer isso sem criar uma sociedade triste, rígida ou preocupada apenas com a própria sobrevivência.

Porque o nosso objetivo não é construir comunidades onde as pessoas sobrevivam de dentes cerrados.

Queremos lugares onde se trabalhe, claro.

Mas também lugares onde se ria. Onde se cante. Onde se dance. Onde as crianças corram. Onde as pessoas idosas continuem tendo o seu lugar. Onde as pessoas se apaixonem. Onde se faça festa.

Queremos salvar a vida sem eliminar aquilo que nos dá vontade de vivê-la.

E temos ainda outro problema.

Provavelmente não temos cinquenta anos pela frente.

Talvez tenhamos alguns anos.

Talvez mais.

Ninguém conhece exatamente o calendário.

Mas sabemos uma coisa:

precisamos avançar muito mais rápido do que normalmente permitiria uma transformação dessa dimensão.

Por isso fizemos uma escolha.

Usar toda a força das ferramentas modernas para nos prepararmos para um mundo que poderá dispor de muito menos tecnologia.

É um paradoxo.

Mas provavelmente é a nossa melhor chance.

Vejam a dificuldade.

Precisamos partir de conhecimentos dos quais uma parte importante ainda nem existe.

Precisamos reencontrar os conhecimentos que existem, mas estão espalhados pelo mundo.

Precisamos identificar as mulheres e os homens que ainda possuem determinados saberes práticos.

Precisamos experimentar. Documentar. Corrigir. Transmitir.

Depois precisamos permitir que pessoas comuns, que talvez inicialmente não possuam esses conhecimentos, consigam realizar tarefas às vezes complexas.

Tarefas que dependem de outras tarefas.

Na hora certa. Na ordem certa. Com os recursos certos. E, às vezes, num ambiente extremamente degradado.

Foi por isso que começamos a construir algo que permanece quase invisível quando olhamos simplesmente para uma Aldeia.

Uma organização do conhecimento e da ação.

Imaginem uma Aldeia com 500 pessoas.

Cerca de 300 adultos capazes de participar ativamente do seu funcionamento.

Ninguém pode saber tudo aquilo que precisa ser feito.

Ninguém pode se lembrar de tudo.

Ninguém pode dominar ao mesmo tempo agricultura, saúde, construção, água, energia, alimentação, estoques, animais, ferramentas, crianças e segurança.

Seria impossível.

Por isso criamos um sistema informático que deve permitir a cada pessoa saber:

o que precisa ser feito, por que precisa ser feito, como fazer, do que precisa, quando fazer e com quem.

O objetivo é extremamente simples de dizer:

permitir que esses 300 adultos façam, dia após dia, aquilo que é necessário para que 500 pessoas possam continuar vivas dez anos depois.

Esse sistema não decide no lugar dos seres humanos.

Não substitui a inteligência deles.

Organiza o conhecimento. Conecta as ações entre si. Permite transmitir saberes práticos. Ajuda a não esquecer aquilo que é essencial. Acompanha quem está aprendendo.

E, pouco a pouco, aquilo que era complicado se transforma numa capacidade humana.

Isso é fundamental.

Porque, mais adiante, a própria tecnologia também pode se tornar frágil.

A tecnologia deve, portanto, ajudar o ser humano a voltar a ser capaz de viver sem ela.

E decidimos colocar essa ferramenta gratuitamente à disposição de todos.

Por quê?

Porque, se você possui algo que pode ajudar um ser humano a proteger a própria vida e a vida de seus filhos, fica difícil dizer:

“Você poderá usar isso se tiver dinheiro suficiente.”

Isso estaria em contradição com tudo aquilo que estamos tentando construir.

O nosso objetivo não é vender a possibilidade de viver.

O nosso objetivo é torná-la possível.

Fazer o conhecimento circular

Em torno desse núcleo, estamos desenvolvendo outras ferramentas.

Porque uma Aldeia não pode viver fechada em si mesma.

É preciso se comunicar. Trocar conhecimentos. Pedir ajuda. Compartilhar uma descoberta. Falar com alguém que não fala a nossa língua. Preparar uma ação com pessoas que estão a centenas ou milhares de quilômetros de distância.

Foi por isso que desenvolvemos uma ferramenta de comunicação que chamamos de NDAJE.

NDAJE é uma palavra do wolof ligada à ideia de reunião, encontro e conversa.

Ela permite que pessoas que falam línguas diferentes trabalhem juntas.

Hoje isso pode parecer secundário.

Mas amanhã, a capacidade de fazer um conhecimento circular pode ser tão importante quanto o próprio conhecimento.

Também estamos desenvolvendo formas de captar o conhecimento antes que ele desapareça.

Em todo o mundo existem mulheres e homens que ainda sabem fazer coisas essenciais.

Cultivar determinados tipos de terra. Conservar alimentos. Construir com poucos recursos. Consertar. Cuidar. Criar animais. Fabricar. Organizar.

Mas uma parte desse conhecimento existe apenas na cabeça dessas pessoas.

Se elas desaparecerem sem ter transmitido esse conhecimento, podemos perder em poucos segundos experiências acumuladas ao longo de várias gerações.

Por isso, uma parte do nosso trabalho também consiste em ir buscar esse conhecimento.

Registrá-lo. Compreendê-lo. Transformá-lo em algo que possa ser transmitido. E colocá-lo à disposição de quem um dia vai precisar dele.

Também trabalhamos em torno daquilo que chamamos de Companheiros da Vida.

Mulheres e homens que, por meio de sua experiência, de sua obra, de sua coragem, de sua inteligência ou de sua maneira de olhar para o mundo, podem nos transmitir alguma coisa.

Não necessariamente soluções prontas.

Às vezes, um método. Às vezes, um conhecimento. Às vezes, uma maneira de pensar. E, às vezes, simplesmente uma força moral.

Porque, quando se empreende algo dessa dimensão, ferramentas não bastam.

Também precisamos de referências humanas.

Colocar esse conhecimento ao alcance de todos

E depois há ainda outra tarefa imensa:

fazer tudo isso ser conhecido.

Porque uma solução que permanece fechada dentro de alguns computadores não serve a ninguém.

Por isso queremos falar. Explicar. Mostrar. De novo e de novo.

O nosso objetivo é publicar um vídeo curto todos os dias nas diferentes redes sociais.

E, todas as semanas, dois vídeos mais longos, com cerca de vinte minutos, para termos tempo de explicar de verdade um tema, uma dificuldade, uma solução ou uma experiência.

Por que tanto?

Porque não estamos simplesmente tentando tornar uma organização conhecida.

Estamos tentando fazer nascer uma pergunta na cabeça de milhões de pessoas:

E eu, como vou viver amanhã?

Há mais de vinte anos trabalhamos quase todos os dias para construir uma resposta a essa pergunta.

Milhares e milhares de horas.

Não apenas para escrever ideias.

Para construir métodos. Ferramentas. Organizações. Conhecimentos. Software. Meios de comunicação. Experiências no mundo real.

Tudo aquilo que pode transformar uma preocupação em capacidade de agir.

E, pouco a pouco, estamos colocando esse trabalho à disposição do público em oito idiomas, para que ele possa ultrapassar as fronteiras do lugar onde nasceu.

E gostaria de terminar com algo que talvez possa surpreender.

Nada disso nasce de uma oposição ideológica ao mundo em que vivemos.

Não dizemos:

“O dinheiro é ruim.”

Também não dizemos:

“Toda autoridade é ruim.”

O dinheiro e o poder foram ferramentas extraordinariamente poderosas da nossa civilização.

Mas as ferramentas só são úteis enquanto continua funcionando o mundo que permite que elas existam.

Num ambiente muito mais frágil, algumas coisas que hoje parecem fundamentais podem, pouco a pouco, se tornar secundárias.

Imaginem que vocês estão com fome.

De repente, quem possui mil euros e quem sabe plantar batatas já não possuem a mesma riqueza.

Imaginem que uma bomba d’água quebra.

Quem possui um título importante e quem sabe consertar essa bomba já não têm o mesmo poder.

É isso que vai mudar.

O valor vai voltar a estar na capacidade de fazer. O poder vai voltar a estar no conhecimento útil. A segurança vai voltar a se apoiar na comunidade. E a riqueza vai voltar a estar naquilo que realmente permite viver.

Talvez o dinheiro e o poder não desapareçam completamente.

Mas podem se tornar muito menos centrais do que são hoje.

Quase anacrônicos em algumas áreas.

E talvez, no fundo, isso não seja uma catástrofe.

Talvez seja também uma oportunidade de redescobrir algo que a nossa civilização às vezes esqueceu:

um ser humano não é rico por aquilo que possui.

É rico por aquilo que sabe fazer. Por aquilo que sabe transmitir. Pelas pessoas com quem pode contar. E por aquilo que é capaz de construir com os outros.

É também isso que estamos tentando preparar.